Sunday, September 27, 2009

Transforma-se o amador na coisa amada

«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.

Herberto Helder

Wednesday, December 31, 2008

Humanidade pós moderna

Um cão, uma pessoa ou um insecto?
Prefiro claramento o cão, ou até um gato, mas lá que me faz ficar aqui roidinho faz.
O insecto pelo menos não está infectado de "Humanidade" usa os seus despojos, infiltra-se, anda à volta, usa , mas virar é que não vira.
Retiro o cão e o gato fica então o insecto, mas já tenho aqui insecticida.

Cair na desgraça com Graça

Cair na desgraça com Graça tem em si o movimento da rapidez vertiginosa descencente. Uma gruta de kilómetros até ao centro da Terra onde ardem alma e ser, onde o centro espera que algum insecto pré-histórico cave na Terra a Graça que lhe é devida. A única possivel. A do mergulho nesse abismo indecifrável e cavernoso onde o corpo explode e se reconstrói em pedaços.

Saturday, May 10, 2008

Wednesday, March 12, 2008

Monday, January 14, 2008

Novo Filme

...Entra-se na sala e tudo aponta para a morte...
É a terceira idade a funcionar... compasso de espera. todos os objectos da vida que já não são utilizados. tudo colecionado pela crença...

Oh, oh, oh... é de ir ao garrote...

... sala dos arrumos, de objectos caros... fotografias no móvel da sala de quem já não existe e dessa forma, alimenta o compasso de espera... objectos fixados por toda a parte... luz serena, anunciadora...

a consciência de ter que partir...

Oh, oh, oh... é de ir ao garrote...

Thursday, December 20, 2007

Relatório nº 7.8 / 2007

Um dia na vida do parlamentar 5745 no Ministério dos Rogérios
5 Rogérios não são 4 Rogérios
7 Rogérios são muito mais que 3 Rogérios
4 kilos de pêras dá uma brutal diarreia
5 litros de leite nada tem a haver com 54 Rogérios

Parlamentar 5745 entrega relatório de actividades do dia.

Sala de fumo

Cortinados amarelos, cigarros a meio, cabelos penteados, um tacho de marmelada, 3 vinténs de desperdício, 4 toneladas de rojões e 5 palermas deslumbrados a decidir o país.

Wednesday, December 19, 2007

Ovos, Medicamentos, Remédios( MOR )

Gosto de comer ovos, não gosto de medicamentos só tomo os remédios

Não como ovos porque me molestam o fígado criam-me círculos vermelhos imperfeitos, tortos, espaçados, intermitentes sem na verdade se definirem quão tortos e quão imperfeitos e quão espaçados e quão intermitentes são, já que à volta do centro o vermelho é sempre vermelho e não há mais atrito por mais vermelho que seja ou menos vermelho que não seja...é vermelho ou escarlate ou encarnado apesar de virem todos de sítios diferentes encontram-se todos no mesmo sítio, na côr e na comichão...(pausa 2 segundos) para ser mais preciso na descrição, um braço meu faria vingar a imagem de um grosso amburguer de carne muito picada. Pausa 3 segundos,  o nome Impingem parece-me bem é uma palavra mais instalada na pele, na verdade devem ser micoses ou mais precisamente Tínea do corpo o mesmo que dizer que se coça até que o fungo se canse...pausa curta, não como ovos e também não tomo medicamentos não me atraem, apesar de terem em geral uma forma e côr apelativa, não são mais que objectos de um culto que eu não partilho...pertencem à classe do erotismo seguro ou erotismo regular seguindo uma corrente sedenta de se esquecer da memória desejando o privado sem o outro... não faz as minhas delícias ou não deveria...
não como ovos, não tomo medicamentos só tomo os remédios.Não vejo melhoras.

Friday, October 19, 2007

"Elogio ao amor"

Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso )"

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Monday, July 23, 2007

há sempre alguma coisa. quanto mais não seja nós.

Saturday, July 21, 2007

Ontem, prendi o sangue,
Morri de frio.
Hoje não tenho nada, nem medo da memória.

victor jorge

Thursday, July 05, 2007

Autobiografia sem fatos

[1]

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia. A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstração do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo sutilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.

Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entretenimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida. Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objetividade ao prazer subjetivo da leitura.

Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde. Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incômodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cômodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.



[2]

Tenho que escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.



[3]

Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos – tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas – uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o elétrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador noturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!

Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito freqüentes; esses são musicais. No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação.

Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu destino, alheio, até, ao destino próprio – inconsciência, carambas ao despropósito quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas – salada coletiva da vida.



[4]

E do alto da majestade de todos os sonhos, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Mas o contraste não me esmaga – liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso com que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que me faço.

A glória noturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, e do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento do mundo.

E na mesa do meu quarto absurdo, reles, empregado e anônimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos, da minha estátua recebida por prazeres, e do anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático.



[5]

Tenho diante de mim as duas páginas grandes do livro pesado; ergo da sua inclinação na carteira velha, com os olhos cansados, uma alma mais cansada do que os olhos. Para além do nada que isto representa, o armazém, até à Rua dos Douradores, enfileira as prateleiras regulares, os empregados regulares, a ordem humana e o sossego do vulgar. Na vidraça há o ruído do diverso, e o ruído diverso é vulgar, como o sossego que está ao pé das prateleiras.

Baixo olhos novos sobre as duas páginas brancas, em que os meus números cuidadosos puseram resultados da sociedade. E, com um sorriso que guardo para meu, lembro que a vida, que tem estas páginas com nomes de fazendas e dinheiro, com os seus brancos, e os seus traços a régua e de letra, inclui também os grandes navegadores, os grandes santos, os poetas de todas as eras, todos eles sem escrita, a vasta prole expulsa dos que fazem a valia do mundo.

No próprio registro de um tecido que não sei o que seja se me abrem as portas do Indo e de Samarcanda, e a poesia da Pérsia, que não é de um lugar nem de outro, faz das suas quadras, desrimadas no terceiro verso, um apoio longínquo para o meu desassossego. Mas não me engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um empregado deste escritório.



[6]

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os gênios e os célebres! Aqui, eu, assim!...



[7]

Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.

Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo – tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte.

Aliás, se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos Douradores, a que outra coisa me chegaria – porque a outra me haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria – porque de outro me haveria de vestir?

Todos temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível. Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável, de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes gênios e a muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade... Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstratos do mundo.

Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios com todo o Estado: “você é explorado, Soares”. Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.

Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.

E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia, escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar – ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas.



[8]

O patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do patrão Vasques. Que me é esse homem, salvo o obstáculo ocasional de ser dono das minhas horas, num tempo diurno da minha vida? Trata-me bem, fala-me com amabilidade, salvo nos momentos bruscos de preocupação desconhecida em que não fala bem a alguém. Sim, mas por que me preocupa? É um símbolo? É uma razão? O que é?

O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não ter feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim. Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram gênios e não foram mais que mendigos com sonhos, junto com a massa anônima dos que não tiveram poder para vencer nem renúncia larga para vencer do avesso. Seja onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o escritório da Rua dos Douradores, e a monotonia da vida quotidiana será para mim como a recordação dos amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus.

O patrão Vasques. Vejo de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo – estatura média, atarracado, grosseiro com limites e afeições, franco e astuto, brusco e afável – chefe, à parte o seu dinheiro, nas mãos cabeludas e lentas, com as veias marcadas como pequenos músculos coloridos, o pescoço cheio mas não gordo, as faces coradas e ao mesmo tempo tensas, sob a barba escura sempre feita a horas. Vejo-o, vejo os seus gestos de vagar enérgico, os seus olhos a pensar para dentro coisas de fora, recebo a perturbação da sua ocasião em que lhe não agrado, e a minha alma alegra-se com o seu sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multidão.

Será, talvez, porque não tenho próximo de mim figura de mais destaque do que o patrão Vasques, que, muitas vezes, essa figura comum e até ordinária se me emaranha na inteligência e me distrai de mim. Creio que há símbolo. Creio ou quase creio que algures, em uma vida remota, este homem foi qualquer coisa na minha vida mais importante do que é hoje.



[9]

Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora. E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução.



[10]

E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.



[11]

Litania

Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos – um poço fitando o Céu.



[12]

Invejo – mas não sei se invejo – aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.

Que há de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.

Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochê das coisas... Intervalo... Nada...

De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo... Sim, crochê...



[13]

A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Subsisto nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos – com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender – ante tudo isto o que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.

Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas, mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores ativos, nossos deuses por licença da Câmara.
A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível

Fonte: "Livro do Desassossego"

Autor: Pessoa , Fernando Tema: Compreensão
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida

Fonte: "Livro do Desassossego"

Autor: Pessoa , Fernando Tema: Vida
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade
Fonte: "Livro do Desassossego"

Autor: Pessoa , Fernando Tema: Homem
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções
Fonte: "Livro do Desassossego"
Autor: Pessoa , Fernando Tema: Inteligência

(a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.



Herberto Helder
PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim
1995

Os Animais Carnívoros

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo

sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia

depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um

parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais

diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-

bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava

impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o

que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e

urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às

nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então

os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha

intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora

era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos

eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era

uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas

abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.



Herberto Helder
Poesia Toda
1979
Assírio & Alvim

Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder
Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

o amor em visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder

Alberto Caeiro

O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.

Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos

É,além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos


Alberto Caeiro

aos amigos...e a ternura humana

amo devagar os amigos que são tristes e com cinco dedos de cada lado.os amigos que elouqecem e estão sentados,fechando os olhos,com os livros atrás a arder por toda a eternidade.não os chamo,e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
temos um talento doloroso e obscuro.
construimos um lugar de silêncio.de paixão.

herberto helder

Thursday, May 17, 2007

velocidade

Mascarar a vida e sonhar morte.
Saber Sal como o sangue dos loucos,
Correr para o outro lado do espelho ao contrário,
Deixar o desejo à porta ,
Fornicar e pensar Hoje diferente,
Desenterrar a memória,
Aniquilar a cultura
Rejeitar o chão
Aprender a cair
E Repetir a corrida sem deixar pegadas.

Victor Jorge

Para a Sónia, obrigado.

Tuesday, May 08, 2007

Jejuar

Entre Deus e o Diabo convoco,

Sibilante ronronar de águas profundas que de Sal e Mar nao resta chão de memória só frio.
Entre Deus e o Diabo convoco,
Correntes aquecidas nos calaboços do jejum.
Entre Deus e o Diabo vejo o equívoco do Homem a tropeçar na História.
Entre Deus e o Diabo convoco,
O esquecimento.

Victor Jorge

Monday, April 30, 2007

Memoria dos mortos e outros desejos

Esquecer-me de mim...
Ligar a corrente e ver o Mar
Aquecer-me num fósforo
Andar sem saber para onde
Fazer Mundo
Esquecer a dor
Re-sistir
Aprender a levantar Vida
Pensar Silêncio
Esquecer-me de mim...
Ser todos...
De ontem,
Re-des-
-Cobrir-Te,
Na História,
Desejar-te amanhã,
Arquétipo museulógico,
Que o erro desforrou na ingénua memória de quem persiste.


Victor jorge

Sangue

De sangue e pedra se faz estranho o encontro da memoria
De Mar e Sal se perdem esquecimento e corpo
Por uma vida
A vitalidade do nada.

victor jorge

Sunday, April 29, 2007

movimento II

Dois Mares encostados ao pulmão
Cravam na memória a imagem seca da impotência
A vitalidade do toque repete-se no espelho diferente do anterior
O pormenor distingue-se

Mapeia uma nova vida,
Perpetua a imanência.
Desqualifica a igualdade,
Torna-se intemporal,

Lança para o futuro Outros Orgãos...

O movimento do silêncio invoca e funda,
A aparência...
Re-cobre o desconhecido.

Sem chão,

Sem trama,

Só acção e reflexo.


victor jorge

Thursday, April 19, 2007

Por Amor

Por Amor
Esqueceu-se de olhar.
Por Amor
Desequilibrou-se e caiu.

Victor Jorge

Movimento

A memória e o deserto são campos de batalha onde se traçam linhas invisiveis
em que o desconhecido mata mais cedo que a ansiedade.
Lembrar que se esqueceu é tão cruel como a morte que se desfaz e re-constrói de equívocos.

Victor Jorge

Tuesday, April 17, 2007

Cronica dedicada ao meu amigo Michel Audiard...

Um conhecido meu costumava afirmar que o ar do campo e puro porque os camponeses dormem de janela fechada. E digo costumava dado que morreu precisamente no campo, ao fazer chichi para um poste de alta tensao: a mulher que nao o tinha em grande estima confidenciou ao guarda florestal, que lhe veio participar o falecimento, ter sido a unica vez que o marido fez faiscas com a pila. Talvez por isso durante o casamento tiveram quarto em comum e sonhos separados. Alias, conhceram-se por um anuncio no jornal. Ao combinarem o primeiro encontro ela, que trabalhava num hotel, pediu-lhe que a esperasse na porta das traseiras a fim de que os colegas de emprego os nao vissem:
- Como a reconheco? perguntou ele
- E simples. disse ela - Os caixotes de lixo sao verdes e eu estou vestida de amarelo.
O que era verdade, embora a verdade nao seja simpatica:se o fosse toda a gente a dizia, e por nao ser simpatica conduz ao isolamento que leva imperadores para as ilhas e os solteiros para as cozinhas, solteiros que na sua maior parte gastam a vida a tentar esquecer uma mulher inteligente:esquecer uma mulher inteligente custa um numero incalculavel de mulheres estupidas, dessas para quem guardar um segredo consiste em repeti-lo a uma so pessoa de cada vez e que sonham vestir-se em Paris, de tal maneira em Paris que o genero de roupa que gostam so se encontra nas bailarinas de segunda fila das Folies Bergeres. Costumam escolher homens na idade do pai, o que deteriora velozmente a relacao por nao possuirem nenhum espirito de familia. E e por o nao possuirem que matam a dita familia de desgosto, a melhor forma de assassinio por nunca se encontrar a arma do crime...
...Quando eu estive em Africa o que mais me maravilhava eram as fortunas que certas pessoas faziam com a exploracao colonial, fortunas que depressa se arruinavam gracas as mulheres, ao jogo e aos gestores:as mulheres eram a forma mais divertida de empobrecer, o jogo a mais rapida, os gestores a mais eficaz. Se calhar nao fui especialmente corajoso em Angola:o meu capitao garantia que era preferivel sair de cabeca baixa que com os pes para a frente...
...atraves das inumeraveis reviravoltas e convulsoes deste pais a unica coisa que nao mudou foi a percentagem de parvos. E um parvo em pe vai mais longe que um intelectual sentado. Ou um politico. Como este secretario-geral que se chama Rui Rio. Rui Rio, Rui Rio, Rui Rio, Rui Rio:nao e um nome. E a primeira licao de um curso de terapia da fala destinado ao doutor Cavaco Silva para quem a lingua portuguesa tem demasiadas consoantes do mesmo modo que o principe achava que a musica de Mozart possuia demasiadas notas. E verdade: Portugal, para mim, e um pais de uma simples, solitaria, singela nota. O do.

Antonio Lobo Antunes, Livro de Cronicas

Amanha

Amanhã - Apr. 16, 2007 at 09:01 PM



Com uma lâmina colada ao pescoço a-prendi sangue...
Ontem,
Morri de frio.
Hoje não tenho nada, nem medo da memória.


victor jorge

Uma pagina uma palavra

uma página uma palavra - Apr. 14, 2007 at 11:18 PM


dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue.Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva,uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
de um sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca.Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.

H Helder. (excerto)

Perder mais uma vez...ate morrer de riso

perder mais uma vez...até morrer de riso - Apr. 15, 2007 at 10:30 PM


Queria-te nua

Moldar o Teu ventre,

Beijar os ombros

fazer mulher

Dizer o AMOR

.

Queria-te morta de desejo

Com a viva paixão

Entre Deus e o Diabo

Para sorrires na Terra

E alto cantares

...

Desejo-te...

Mar!

Despida...

Para me afundar onde celebras vida.


Seja MORTE seja perto

Que de longe não te Vejo.


victor jorge

Monday, February 19, 2007

ai, ai, ai... ai, ai, ai...
ai,... ai,... ai, ai, ai,
AI, AI,... ai, ai...
AI.

quanto custa alimentar um coração perdido?...
quanto custa fingir que se tentam alimentar,
todos estes corações perdidos?...


ai, ai, AI, ai...
ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.
AAAAAIIIIIII,... ai, ai, ai,
ai, ai, ai, ai, AAIII...

bem venderam que o coração é um sentido...
e eu comprei!...
orgão mais egoísta...
Quieto. não pára...


AI, AI, ai, ai,... ai,... aaiiiiiii,...
aaahhhh,...
ai,... ai, ai, ai, ai,...
ai ai ai ai ai ai,... AAAIIIiiiii...

nariz, neutro e quase imparcial...
serve a boca alarve...


aaaaaaaaaaii...
ai, ai, ai, aaaaiii...
...
ai,... ai...

melhor que o coração, sentem
o tacto e a visão.


eheheheheheheheheheh!
eh, eh, eh, eh, eh, ehehehe...
eh,... eh,... eeeeh, eh, eehh...
Heeee, eh...

Parem de me violar os ouvidos...
Já me foderam um e querem foder o outro...

AAAAAAAAiiiii, ai,.. ai, ai, ai...
ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai...
AAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIiiiiii...
ai ai ai ai ai... ai, ai...

Thursday, January 18, 2007

Se tiver...

Azeitonas, Castanhas, Favas, Canela, Limão, Chocolate...

estou lá!

Tuesday, September 19, 2006






imagens de morte?

Sunday, August 27, 2006





onde está o corpo ?
para onde vai ? que tom? que ritmo ? como se desloca? para que se desloca? movimenta ou movimenta-se ?
esconde ou esconde-se ? mostra ou mostra-se ? destapa ou destapa-se ? encobre ou seduz ? usa ou troca? mata ou corrompe ?
tem matéria própria ou emprestada ?
sabe finjir ? sabe olhar ? joga ? age ou re-age ? é autónomo ? de quem ou de quê ?
para quê ? para quem ? para onde? tem memória ? sua ou emprestada? roubada ? a quem ? para quê ?
mata? ritualiza e por aí vive no esquecimento ? decompõe-se e reconstrói-se ou transforma-se ?

outro tom, este:

espera

a espera faz de nós seres automatizados...

Saturday, August 12, 2006

um é impossivel o outro inevitável, caso haja dúvidas

Friday, August 11, 2006

se eu fosse criança outra vez, ansiava ser adulto e apalpar o rabo às meninas bonitas.
se for um miúdo a mulher ri, mas se for um homem adulto a mulher fica com um ar sério.

Depois de escrever isto, vou sair a porta de casa e pedir às pessoas para por favor não amassarem mais a chapa do meu carro. Vou passar mais um dia a fingir que sou uma pessoa normal.

Sunday, May 07, 2006

exercícios de sobrevivência para o sentido e outras coisas que tal

questões da gelatina e o aqui há gato, mas então que coisa, pois...com que então!...hum

pois na verdade até podia ser, mas, no entanto,à pois é... a coisa tá é feia...porque, pois... claro, é tal e qual! ah, pois, lá está -
e disse o outro que estava sentado a um canto - não se esqueçam lá daquilo tá bem?...não se esqueçam lá daquilo hum?...ah pois é...
- pois é...
- pois é...



enfim,...lá está

afinal tudo acaba em bem

ass: ursinho

Monday, October 31, 2005

estar

estar não é, de todo, a mesma coisa que ser-se consciente de que se está.
por vezes está-se sem se ser presente...
cada vez mais a presença em sítios, pessoas ou estados de espirito é, para mim, algo transcendente, algo que ultrapassa o ser-se.
por vezes estou aqui, sem estar
outras vezes não estou aqui e estou
cada vez mais tenho a sensação de que a presença é ultrapassada por uma outra presença.
muitas vezes e, por vezes, durante grandes espaços de tempo não estou aqui... mas tu e tu estão comigo sempre - será que é no coração, será na mente, será na ponta dos dedos, será uma coisa cotanea?
não sei... sei que tu e tu estão sempre comigo, e são essas as presenças que me interessam o resto é a presença da passagem, da paisagem...

Monday, October 17, 2005

secretismo, erotismo e a dança do ventre

A dança do ventre confronta-nos com a relação via directa, secretismo / erotismo.

olhar o movimento

Romper o espaço a partir de dentro revolvendo o exterior, isolar, compartimentar, juntar, misturar re-organizar, decompôr e trazer para a terra o que vive no reino da sugestão.(secretismo e erotismo)


nova vida

A composição do espaço exterior aparece-nos em imagens compartimentadas mas unidas pela pele, que nos põe na terra ao mesmo tempo que nos aproximam ao regime sensorial, volátil e indefinido,mas também nos tranporta no sentido da verticalidade dos Deuses tão rapidamente como na horizontalidade terrena e mortífera.
A composição do espaço exterior via interna, compõe uma nova disciplina.A morte.(secretismo erotismo e morte)


Pele

No sentido descontínuo do movimento a pele perfura e une, sem necessáriamente re-organizar, une
o corpo total e faz do corpo interno uma realidade organizada e estruturada para o olhar (exterior) do outro em composição.
sem necessáriamente re-organizar porque só o olhar do outro organiza e re-organiza e destrói o espaço exterior que lhe é dado.

Sugestão

para próximas núpcias,

Wednesday, September 07, 2005

presente / futuro / passado

O património histórico e a obrigação de olhar para o futuro...

Wednesday, August 17, 2005

dedicação

Sem dedicação tudo morre, apesar de ingenuamente ou egoistamente pensarmos por vezes que permanecemos no e com o outro. Permanecemos em nós, sim, talvez possamos existir para nós, sim , mas para o outro?, se não o pusermos cá fora a coisa não se dá.

Materializar, dar forma ao que pensamos (falar, escrever, verborrear, pintar, enfim) é estar com o outro (neste contexto), é estar com o outro, com tempo.

Temos Tempo, Temos Espaço, até onde?

Wednesday, July 27, 2005

a procura

Quando se procura como dizer o que dizer, muitas vezes não se encontra como o fazer... Hoje é um desses dias... Por vezes a procura não acaba quando se descobre o assunto, a procura é algo que demora tempo, que tem o seu tempo, um tempo feito de palavras que crescem dentro e nós e à volta nossa e que é necessário colher como se um fruto fosse. Esta entrada é apenas para dizer que a procura continua, talvez até mesmo a procura sobre a própria procura, a procura das palavras, das memórias e dos momentos. Apenas para dizer que vale sempre apena esperar até falar, até escrever, até agir... Esperar que seja altura, que seja TEMPO.

Wednesday, June 29, 2005

memórias e/ou recordações

Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se; não são de maneira nenhuma idênticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta. Ao invés, o moço possui a memória em alto grau, usa dela com facilidade, mas falta-lhe o mínimo dom de se recordar. Em vez de dizer: «aprendido na mocidade, conservado na velhice», poderíamos propor: «memória na mocidade, recordação na velhice». Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o moço que tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recordação, que tem por efeito afastar, distanciar.

A feliz recordação do velho é, como a feliz facilidade do moço, um gracioso dom da natureza, da natureza que protege com seus cuidados maternais as duas idades da vida que mais precisam de socorro, se bem que, em certo sentido, sejam também as mais favorecidas. Mas é por isso também que a recordação, tal como a memória, muitas vezes não passa de portadora dos dados mais acidentais. Apesar de se distinguirem por grande diferença, a recordação e a memória são por vezes tomadas uma pela outra. A recordação é efectivamente idealidade, mas como tal, implica uma responsabilidade muito maior do que a memória, que é indiferente ao ideal. A recordação tem por fim evitar as soluções de continuidade na vida humana e dar ao homem a certeza de que a sua passagem pela terra efectua uno tenore, num só traço, num soporo, e pode exprimir-se na unidade. Assim se liberta ela da necessidade em que a língua se encontra de repassar incessantemente pelas mesmas tagarelices, para reproduzir aquelas de que a vida se encontra repleta.
Soren Kierkegaard, in 'O Banquete'

Tuesday, June 28, 2005

memória ou gravidade, sigamos antes o cherne...

em grosso modo e a título de repto

escrever cria-me um entrave ao pensamento, porque é em si, um processo mais lento comparado com o do suposto cérebro ou corpo total. O desvio é constante, mas as tentativas também.

o processo da composição(sentido latino do termo, ou melhor italiano, abrangente tal como italo calvino o evoca e usa) é lento e manifesta-se nas dobras perante a adversidade, adversidade esta que não é nunca idêntica nas diferentes áreas das artes.

voltando ao processo da composição e as dobras. descartes diz que (e cuidado com a palavra imaginar) os intelectuais chegam pelo pensamento/reflexão onde os artistas chegam pela imaginação.

esta expressão leva-me ao caso português ou melhor do espírito melancólico de ser português, ora bem,

se a melancolia existe e se o português transporta uma carga de melancolia a que outros chamam tristeza façamos a seguinte comparação ou analogia, dedutiva ou indutiva ou o que quiserem que se lixem as formas estanques da filosofia, "sigamos o cherne", a melancolia é um excelente produtor e catalizador de imagens, imagens estas que se não forem expressas(catalizadas para ou como modo de acesso) serão alojadas no baú da memória, ao mesmo tempo que o processo de criação de outras imagens continua (consciente e inconsciente), memória esta que não acumula indefinidadente em silêncio, mas começa a rasgar, a expressar-se nos mais diferentes modos ou pior cria formas fixas e estanques, pervetendo e sendo ela própria pervertida ao ponto de já não se saber onde começa ou onde começou aquela catadupa de imagens, agora acções, isto é, deixaram a imagem para se materializarem no primeiro "sítio" que encontrarem.



estar atento à memória porque ela é a nossa ruína.
esquecer tudo, lembrar nada
olhar, fixar e esquecer
ouvir, fixar e esquecer
sentir, fixar e esquecer
emoção,
fixar.
esquecer,
estar atento à memória porque dela nasce o esquecimento.
criar
presente e futuro
na
gravidade
de quem está atento
conveniente
necessário, urgente
fixar,
nada.
descobrir o olhar
perverter o sentido
lembrar que se esqueceu
e não cair.


ao dragão
basta-lhe a pele
basta lhe voar
bastam-lhe as asas
basta-lhe o fôlego
basta-lhe a chama
basta-lhe a exactidão,
mas o dragão não tem peso
não funda a memória,
a sua ruína é nada esquecer

até breve

Friday, June 24, 2005

aceder

o modo de acesso é opção de cada um: imagens, palavras, poemas, dissertações, ...

Wednesday, June 15, 2005

gravidade e graça